Quatro longas horas e meia separam Lisboa de Helsínquia. São também essas horas que substituem vidas passadas à secretária a estudar geografia ou a ler sábios livros que nos contam a história breve de um país nórdico perdido no gelo.
O meu relógio avançou duas horas enquanto eu avancei duas décadas. O frio preciso tem o poder de nos focar a consciência em vez de nos mascarar de miragens.
As ruas de Helsínquia são pequenas e acolhedoras, acendidas por cafés enegrecidos. A avenida principal desemboca no porto, um espaço amplo onde a luz se encontra e ilumina o mar de gelo onde os navios menos afoitos permanecem encalhados. A calma descansa na cidade sob um manto de neve branca e silenciosa.
No entanto, por dentro, a cidade grita rouca, as suas entranhas. No interior a cidade vive de guitarras e de gritos de black metal. Vive de gente vestida de preto e de longos cabelos desarranjados.
Paradoxalmente, toda aquela tristeza rude se transforma em hospitalidade – porque é possível correr as ruas de braços abertos, falar inglês como única língua do mundo, e deixar as malas à porta. E talvez o paradoxo só exista quando em Portugal, à secretária se denominem de vândalos os que sobrevivem ás depressões.
Á volta de Helsínquia moram pequenas ilhas de casas Vikings. Perdidas, incomunicáveis ao Mundo fixo e duro de gelo azul que as rodeia. A individualidade é o conceito que se eleva no ar, que atravessa o vento e que veste a pele branca de quem lá está. O ar é transparente, embora cheio de cicatrizes.
Porque a honestidade não é bonita nem bem comportada. É uma verdade que custa trazer ás costas, mas enche os cemitérios de Helsínquia de uma paz mórbida. E quem ali morre, dorme ao pé do mar para sempre, esquecido numa vida sem propósito. A não ser aproveitá-la.
E a música. A música brota do chão. Vive nas crianças que passam na rua. Sai dos cafés. Ilumina todos os espaços. E avança no tempo.
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