terça-feira, 17 de maio de 2011

Wicked Game

Quatro longas horas e meia separam Lisboa de Helsínquia. São também essas horas que substituem vidas passadas à secretária a estudar geografia ou a ler sábios livros que nos contam a história breve de um país nórdico perdido no gelo.

O meu relógio avançou duas horas enquanto eu avancei duas décadas. O frio preciso tem o poder de nos focar a consciência em vez de nos mascarar de miragens.

As ruas de Helsínquia são pequenas e acolhedoras, acendidas por cafés enegrecidos. A avenida principal desemboca no porto, um espaço amplo onde a luz se encontra e ilumina o mar de gelo onde os navios menos afoitos permanecem encalhados. A calma descansa na cidade sob um manto de neve branca e silenciosa.
No entanto, por dentro, a cidade grita rouca, as suas entranhas. No interior a cidade vive de guitarras e de gritos de black metal. Vive de gente vestida de preto e de longos cabelos desarranjados.
Paradoxalmente, toda aquela tristeza rude se transforma em hospitalidade – porque é possível correr as ruas de braços abertos, falar inglês como única língua do mundo, e deixar as malas à porta. E talvez o paradoxo só exista quando em Portugal, à secretária se denominem de vândalos os que sobrevivem ás depressões.

Á volta de Helsínquia moram pequenas ilhas de casas Vikings. Perdidas, incomunicáveis ao Mundo fixo e duro de gelo azul que as rodeia. A individualidade é o conceito que se eleva no ar, que atravessa o vento e que veste a pele branca de quem lá está. O ar é transparente, embora cheio de cicatrizes.
Porque a honestidade não é bonita nem bem comportada. É uma verdade que custa trazer ás costas, mas enche os cemitérios de Helsínquia de uma paz mórbida. E quem ali morre, dorme ao pé do mar para sempre, esquecido numa vida sem propósito. A não ser aproveitá-la.

E a música. A música brota do chão. Vive nas crianças que passam na rua. Sai dos cafés. Ilumina todos os espaços. E avança no tempo.


segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

True to His Own Spirit

O viajante sem lugar ou país. Um viajante de si mesmo fiel á sua integridade e às suas convicções, senhor do sentido crítico de ter como direcção o lugar nenhum.
Apetece-me escrever o manual do viajante, mas um viajante deve ser contra manuais. Regras para a liberdade são um espelho da hipocrisia moderna.

Por isso, este sábado apanhei o metro em Paris e quedei-me em frente do túmulo de Jim Morrison, americano que morreu do outro lado do seu mundo. De passagem, alguém comentou que ele morrera longe de casa. Eu sorri de forma quase condescendente deste murmúrio sempre tão ignorante. 

Ou não soubesse eu, que este músico renunciou à sua própria família por não se identificar com ela e toda a sua vida foi um aglomerar de vivências de si mesmo, numa extensão da sua personalidade sem interferências passadas – as raízes de que tanto se fala.

Ele era a fiel a si mesmo, não às suas raízes. E por isso, como um viajante, cresceu. Ele sempre esteve em casa. E ao contrário da maioria das pessoas estáticas em fundações sem sentido, morreu no melhor sítio para se morrer -  morreu com ele mesmo. 

 (True to his own spirit - greek inscription on the Jim Morrison grave)


sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

I was born with this disease

                                                                              Travel Bug

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Bus Amesterdam - Brussels - Paris


Take me out tonight
Where there's music and there's people
Who are young and alive

A passagem do ano apanhou-me de passagem entre Antuérpia e Paris. Algures pelo meio da viagem do autocarro que faz Amesterdão-Paris, entrou um passageiro mais da vida do que de qualquer transporte público. Era eu, com uma mochila e um mp3.

Driving in your car
I never want to go home
Because I haven't got one anymore

Sentei-me entre as cabeças encostadas aos bancos, as malas acumuladas no corredor, os pés estendidos, os pacotes de batatas fritas, os restos de filmes e livros. A luz fechou-se, o autocarro seguiu para Bruxelas e eu senti-me estranhamente em casa. Agachada no meu minúsculo lugar, agarrada à minha mochila e com os phones a brotarem Smiths, senti aquele conforto de ter chegado a casa: aquele lugar de passagem, entre pessoas de passagem.

Take me out tonight
Because I want to see people
And I want to see life
Driving in your car
Oh please don't drop me home
Because it's not my home, it's their home
And I'm welcome no more


E entre os meus companheiros virei também as costas à cidade que ficou para trás. E no horizonte, só as luzes da auto-estrada simulavam um caminho para um autocarro cheio de gente desgovernada que não sabe para onde vai.  Mas sabe onde está.

And if a ten ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well the pleasure, the privilege is mine

E naquele autocarro a fermentar vida, lembrei-me que podia morrer. Mas que seria um privilégio morrer assim. Entre uma viagem e minha música.

domingo, 19 de dezembro de 2010

O porquê deste Blog

As viagens sempre cresceram em mim, medravam como ervas daninhas. E por mais que as ceifassem elas floresciam novamente e criavam um jardim onde eu vivia encantada.
No entanto, passaram-se muitos anos em que apenas os meus dedos viajavam sobre o Atlas ou a minha cabeça pousava à janela e recolhia o vento: reconhecia no ar em movimento a dinâmica de outros povos.
E foi nesse dia, no dia em que acompanhei a minha irmã mais nova ao aeroporto para a sua primeira viagem, que me apercebi que estava irremediavelmente apaixonada.
Ela desapareceu por detrás da placa a indicar “Londres”, e eu dirigi-me para a paragem de autocarro. Lisboa acordava para a madrugada estremunhada e eu de olhos (sempre) abertos espreitava uma paisagem junto ao Rio que me parecia desprovida de qualquer encanto.
Era Amor, pensei.

E era. Volvidos alguns anos, recuperei todo o tempo perdido, todas as tardes gastas em buscas desvairadas de cheiros desconhecidos. Cozinhei o tempo e fi-lo estender-se à minha frente. Ignorei os rumores dos estáveis, dos planeadores e dos sábios.
E assim passados cinco anos já tinha visitado a maioria dos países europeus e estava à beira do aeroporto com uma mala e um bilhete para Londres. Estava pronta para consumar o meu casamento, e quando a linha da costa de Inglaterra apareceu na minha visão, eu senti um aconchego, como se de repente tivesse chegado a casa num dia de chuva e à minha espera estivesse uma chávena de chá.
Porque este casamento nasceu consumado.

Viajar é Amor.